Coluna Maria de Fátima Pavei – 03/10/2020

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História de pescador

Um pescador vivia numa casa modesta em uma belíssima aldeia, à beira mar. Tinha um filho lindo e uma esposa que reclamava de tudo: da vida que levava, da pobreza e até do próprio filho. Matias acordava cedo todos os dias, e levava consigo uma rede nas costas e uma marmita. Tinha uma expressão triste, e enquanto caminhava na areia branca da praia recitava alguns versos do escritor Víctor Hugo:  “Da espalda de um rochedo, gota a gota / límpida fonte sobre o mar caia, / Mas, ao vê-la tombar em seu regaço/” O que queres de mim?” O mar dizia. / Eu sou da tempestade o antro escuro/ Onde termina o céu aí começo/ Eu que nos braços toda a terra espreito / De ti, tão pobre e vil, de ti careço?…”/ No tom saudoso do quebrar das águas/ Ao mar, serena, a fonte assim murmura:/ “A ti, que és grande e forte, a pobre fonte/ Vem dar-te o que não tens, dar-te a /doçura!…” Passava o dia todo no mar buscando a sobrevivência, e a poesia era a sua companheira. O velho professor da aldeia, alfabetizou-o e ele se tornou um apaixonado pelas letras. Matias trocava peixes por livros de poemas. O mestre sabia que Matias tinha alma de poeta!

Os pescadores eram felizes, menos Matias que mostrava na face uma tristeza. Os homens do mar trazem consigo uma fonte de pureza e amor pela vida: os sorrisos e os olhares denotam a simplicidade do ser humano, das pessoas que levam uma vida simples à beira mar. O mar e o homem numa integração na sua realidade ontológica, sendo que o homem mantém a sua atenção e abertura ao mundo com “serena lucidez”, o saber a um tempo experimentado e distanciado, próximo da sabedoria. 

Enfileiradas as embarcações, uma a uma sumiam nas ondas do mar. Lá fora os filhos e as esposas, despediam-se em silêncio, sempre com ares de preocupação, porque alguns foram e não retornaram mais. A paisagem do mar, os coqueiros, a areia branca era uma ilustração! Seria o lugar ideal para vivermos, para sempre. Naquela praia não havia nenhum vestígio de impureza, somente ondas tombando ininterruptamente, puro espaço e lúcida unidade, onde o tempo apaixonadamente encontrara a própria liberdade. 

Naquela manhã Matias, acordou pensativo. Chegou até o mar, não foi pescar e sentou-se sobre uma duna, olhos perdidos no horizonte, nostalgia e uma insatisfação. Não conseguiu trabalhar e voltou para a casa, e antes de pôr o pé na porta lá vem a mulher gritando “Matias, isto é hora de voltar para a casa, e os peixes? Cada dia mais pobre, homem fracassado! Estou casada com um sujeito que me trouxe para esta aldeia pobre e seu filho é igual a você, não vai ser nada na vida!” Matias deitou-se na rede com o menino, abraçados adormeceram… Maria fez a mala e partiu.

Segundo a lenda, pai e filho nunca mais acordaram. Foram transformados em anjos, que protegem a aldeia até hoje. A morada desapareceu. Ali nasceu uma árvore verde, e bela, que ofusca os olhares de todos que por ali passam, uma magia! Movimenta-se no ar em formato angelical, dois galhos enormes parecem dois anjos de mãos dadas. Segundo a lenda, é a árvore mais bonita da aldeia, única que é frutífera o ano inteiro, um fruto delicioso! Só que, por entre as folhas da majestosa árvore, por trás dos galhos escorrem as lágrimas…